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MODELO EDUCATIVO E COMUNITÁRIO TRANSFORMA A REALIDADE DE ESCOLA NA PERIFERIA DE ALFENAS


O cenário: uma escola pública de Educação Infantil e Ensino Fundamental localizada na região periférica da cidade de Alfenas, no Sul de Minas. 

Ali, na Escola Municipal Professora Tereza Paulino da Costa, no bairro Pinheirinho, um modelo educativo comunitário, implantado no primeiro semestre de 2019 por meio de um projeto de pesquisa e extensão da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), vem transformando as práticas escolares de gestão, ensino e aprendizagem. Trata-se de uma escola periférica com muitas questões sociais.


Intitulado “Comunidades de Aprendizagem”, o projeto é coordenado pela professora Vanessa Cristina Girotto Nery, do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), que há 17 anos centraliza suas pesquisas e ações de extensão nesse modelo educativo.  

“Quando eu era estudante de graduação, mestrado e doutorado na UFSCar, em São Carlos, eu me formei nesse referencial e quando eu vim para Alfenas em 2011, comecei a ter contato com as escolas para conseguir fazer a transformação”, relata.

Segundo Profa. Vanessa, somente no ano passado que a proposta foi integralmente conhecida, a partir de um curso de formação continuada para professores, realizado pela UNIFAL-MG em parceria com a Secretaria Municipal de Educação.

Ao identificar a possibilidade de ver o modelo educativo comunitário de fato funcionando, professora Vanessa organizou um cronograma de ações, que envolveu a apresentação da proposta aos supervisores da escola, o aceite do grupo junto aos professores e a formação para as chamadas “atuações educativas de êxito”. 


“O projeto não é do pesquisador, nem mesmo da escola, ele deve ser encarado como uma ação coordenada entre todos aqueles que compõem a escola e, caso não se chegue a um acordo entre todas as partes, ele não acontece”, ressalta.

Conforme a diretora da Escola Municipal Professora Tereza Paulino da Costa, Ana Beatriz dos Santos Vieira, adotar o modelo não foi uma imposição para a escola. 

“A nossa preocupação enquanto escola é o aluno. Não temos outra preocupação que não seja a aprendizagem deles, então temos que buscar recursos. No ano passado, a Secretaria nos propôs a Comunidade de Aprendizagem falando que era uma maneira diferente de ensinar”, conta, acrescentando que apesar do receio de como seria trabalhar a novidade, os supervisores abraçaram a causa e 75% do grupo votou a favor da implantação da proposta educativa.

A Escola Municipal Professora Tereza Paulino da Costa tem 680 alunos, do pré de 4 anos até o 5º ano, distribuídos em 34 salas. Todas as turmas participam das atividades educativas da Comunidade de Aprendizagem. 

“As mães também participam do processo. Vêm trazer os pequenos e já ficam ajudando no recreio, às vezes vão para dentro da sala e ajudam as professoras”, explica a diretora.

Atuações Educativas de Êxito
As Atuações Educativas de Êxito, que se diferenciam das boas práticas, são ações que efetivamente aumentam o desempenho acadêmico e melhoram a convivência e as atitudes solidárias em todas as escolas onde o modelo foi implantado.

De acordo com professora Vanessa, são sete cinco as atividades de êxito que fazem parte das Comunidades de Aprendizagem: as Tertúlias Dialógicas, os Grupos Interativos, Biblioteca Tutorada, Formação de Familiares, Participação Educativa da Comunidade,  a Formação Pedagógica Dialógica dos Professores, modelo dialógico  de prevenção e resolução de conflito.

No caso das Tertúlias, a coordenadora do projeto diz que são lidos os clássicos da literatura mundial que contribuem para melhorar o desenvolvimento cognitivo e ampliar o vocabulário. 

“Em casa, a criança lê e quando chega à sala, trabalha-se no formato de inscrições, oportunidade em que a professora, que é a responsável e a mediadora, conta com o apoio de outra professora, de um estagiário, uma supervisora, um familiar ou alguém que está ali para auxiliar nas anotações. A professora pergunta: ‘Quem quer comentar alguma coisa sobre o texto? O que vocês gostaram, não gostaram, entenderam, não entenderam, sentiram, pensaram?’”, detalha.

Conforme professora Vanessa não cabe ao professor se focar apenas na interpretação de textos e no significado das palavras. “‘Mas por que você pensou isso? O que você quis dizer com isso? O que você pensa? O que você sente?’. É por meio dessas perguntas que as crianças trazem a leitura de mundo delas, que é aquilo que Freire ensinou, a partir do que está escrito, da palavra. Aí surgem questões de Matemática, como quando lemos Shakespeare e as crianças [queriam saber] quando ele morreu. ‘De quando ele é? De 1500, mas o que aconteceu em 1500 no Brasil?’. Aí já entra o conteúdo de história e de matemática também, trabalhamos quantos anos o Shakespeare teria e quantos anos eles têm, e a gente vai trabalhando de forma interdisciplinar.”

O supervisor do 4º ano, Luciano Teixeira Dias, narra que inicialmente a sua preocupação era com a parte técnica das atividades, saber como entraria a parte gramatical e lexical, e descobriu o quanto a Tertúlia Dialógica também contribui nesse processo além de ampliar a visão de mundo das crianças. 

“As professoras estão reorganizando as atividades já existentes com as Atuações Educativas. Nós seguimos tanto a base do Governo Federal quanto a Superintendência e o currículo de Minas Gerais. As Atuações Educativas na verdade vêm para agregar ao que já é realizado.”

Vivências na Comunidade de Aprendizagem em Alfenas
Renata Santos Milan, professora do 5º ano, diz que as Atuações Educativas de Êxito têm evidenciado outros potenciais dos alunos, apontando a autonomia de estudantes que muitas vezes não apresentam habilidades em outras práticas em sala de aula. 

“Com a Tertúlia, eu percebi que muitos alunos que às vezes não têm um desenvolvimento bom no registro, tem falas excelentes na Tertúlia. Ele fala palavras que não conhecia, não tem acesso para pesquisar em casa, mas sabe o que significa a palavra”, diz.

Para a supervisora do 5º ano, Valéria Aparecida Fernandes, um dos destaques dos trabalhos realizados com a Tertúlia Dialógica e o Grupo Interativo é o fato de possibilitarem a inclusão. “Os olhinhos deles brilham de estarem participando, de levantar o dedo e fazer a inscrição. Nós temos que valorizar esse momento porque é um momento em que eles se sentem incluídos”, afirma.

O relato da bolsista de extensão e uma das mediadoras das Atuações Educativas, Jéssica Danielle Ferreira do Amaral, reforça o quanto a proposta tem sido exitosa na escola em Alfenas. 

“Às vezes você pode não concordar com a base, mas você consegue potencializar e transformar o currículo. Não é uma proposta por amor, são profissionais, a comunidade e os familiares que estão interagindo nesse processo. Quando os familiares vêm, muitas vezes nunca participaram de nada. Imagina o significado para uma trabalhadora doméstica, mãe de alunos, olhar e falar ‘eu estou aprendendo e ensinando alguma coisa’. Muda a concepção de educação que tem. Você começa a acreditar na escola.”

Dentro da proposta da Comunidade de Aprendizagem, as turmas da Escola Municipal Professora Tereza Paulino ainda vão trabalhar a leitura de clássicos como “A volta ao mundo em 80 dias”, “Ilíada”, “Odisseia” – adaptadas para a educação infantil – e, também, “Os Irmãos Grimm”.

com assessoria da UNIFAL-MG

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