Pular para o conteúdo principal

EM CAMBUQUIRA, A UTOPIA DE UMA CIVILIZAÇÃO

No sábado, 18 de junho, um festival internacional mobilizou grandes nomes das artes, artistas sul mineiros e estudantes de artes em um encontro multicultural contra a destruição do planeta

No final da tarde de um sábado frio de junho, todos os 70 assentos do Teatro Thalia estavam calorosamente ocupados quando o pianista Gilbert Gambucci se levantou para anunciar a abertura do 10º Festival Internacional de Artes de Cambuquira (MG). Com gestos comedidos e forte sotaque norte-americano, vestindo um paletó preto bem cortado, camisa azul e gravata borboleta branca, o musicista e organizador do evento explicou que o tema deste ano, “Queremos Nosso Paraíso de Volta!”, discute o papel decisivo da sensibilidade em uma sociedade adoecida. “As artes e a beleza são fundamentais para salvar a humanidade e o planeta”, disse Gambucci, a respeito dos princípios que regem o festival.

Com um programa eclético, o evento apresentou, ao longo de seis horas, 21 atrações, que mobilizaram 63 artistas, oriundos de Argentina, Estados Unidos, Finlândia, Suécia e Itália e de quatro estados brasileiros. No teatro e em uma sala paralela ampla, ambas em estilo Art Déco, o público teve acesso gratuito a exposições de artes visuais, a apresentações de balé, de dança contemporânea e do ventre, poesia, canções latinas, estadunidenses e europeias e músicas clássicas e populares tocadas ao violão e ao piano. No último bloco de atrações da noite, uma aparição diáfana pôs a plateia em suspenso. A musicista Geusilene Débora Nunes, de Lambari-MG, solou três canções à harpa paraguaia. “A ausência de beleza, da harmonia, traz desconforto e mal-estar, afasta o ser humano de sua essência”, ponderou a pintora e organizadora do festival Renata Macedo.


O festival de artes é realizado em Cambuquira desde 2004 e integra o projeto “Stop a Destruição do Mundo”, criado em Paris, há 30 anos, para discutir alternativas artísticas e filosóficas à degradação do planeta. “É no plano das artes que todas as culturas convergem, as artes são uma necessidade vital do ser humano”, avaliou Gambucci.

O fórum e o festival de artes sul mineiro são realizações do Instituto de Ciência e Tecnologia Keppe e Pacheco, mantenedor das Faculdades Trilógicas (FATRI), “as únicas que unificam Ciência, Filosofia e Teologia”, de acordo com o site da entidade. As FATRI têm presença no Brasil em Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Paraíba e Rio Grande do Sul, e no exterior em Alemanha, Colômbia, Estados Unidos, Suécia e Portugal. Em Cambuquira, no Grande Hotel Trilogia, onde aconteceu o festival, são oferecidos gratuitamente cursos de graduação presenciais em Artes Visuais e Gestão Ambiental, a distância em Teologia Terapêutica e Pedagogia Trilógica, além de cursos pagos de graduação, pós-graduação, idiomas e cursos livres.

As formações acadêmicas e livres oferecidas pelas FATRI se orientam pelo Método Trilógico. Criado nos anos de 1970 pelos psicanalistas brasileiros Norberto Keppe e Dra. Cláudia B. S. Pacheco, a trilogia analítica é desenvolvida em diversas partes do mundo, em cidades como Nova York, Lisboa, Londres, Estocolmo, Helsinki, Moscou, Paris, Lucca e Bogotá. O Método Trilógico, a partir de uma interpretação própria da psicanálise freudiana, da física, da filosofia e da teologia, propõe uma clínica analítica sistêmica, ancorada na sensibilidade e na fruição estética. “As artes e a beleza são a essência da civilização”, resumiu Gambucci.



O público do festival, estimado pela organização em 350 pessoas, teve acesso a obras de grandes nomes das artes, a alguns dos principais artistas em atividade no Sul de Minas, além de números dos professores de artes das FATRI e de seus alunos em Cambuquira. “A edição deste ano do festival foi organizada pela primeira vez pelos nossos alunos de Artes Visuais, eles buscaram as atrações da região, divulgaram o evento, se apresentaram, foram os grandes realizadores”, elogiou Macedo, que é professora de artes nas FATRI, assim como Gambucci.

As performances da noite foram divididas em três blocos. Nos intervalos, a plateia era estimulada a circular entre as exposições de artes visuais. No teatro, a superlotação fez com que o público excedente se distribuísse entre as obras em exposição nas laterais da sala. Quando os intervalos eram anunciados, acontecia um curioso balé. As pessoas, girando sobre os calcanhares, davam as costas para o palco e passavam a conversar a respeito das pinturas e ilustrações. “Olhem os quadros com calma, pensem no quê o artista quis dizer a vocês com a obra”, sugeriu Gambucci ao microfone, com discreta alegria. Talvez a alegria de saber que parte do público tinha acesso a exposições de artes visuais pela primeira vez. Na sala contígua ao teatro, onde foi concentrada a maior parte das pinturas e desenhos, se podia ver, entre outros achados, três telas do consagrado pintor argentino Eduardo Catinari, autor de estilo instigante, que assina a capa do filme “Di-Glauber” (1977), cultuado documentário de Glauber Rocha sobre o pintor modernista Di Cavalcanti.

“Análise Keppeana”, por Catinari

Por volta de 21h30, a atmosfera no Teatro Thalia era de absoluta comunhão. A sucessão de momentos líricos e catárticos ao longo da noite, em vez de resultar em cansaço, levou público, técnicos e artistas a se integrarem em um só corpo, harmônico. Foi neste clima que Gambucci se dirigiu ao piano e apresentou Marisa Gurgel, com quem faz o “Duo Norte-Sul”, cujo nome comemora a mescla das culturas e raças americanas. Entrosados, mulher negra latina e homem branco estadunidense executaram ao piano, a quatro mãos, três peças clássicas. Na mesma clave, a última atração da noite também comemorou a diversidade. Júlio César Enézio e sua parceira, a Sra. Vera Lúcia Carneiro Junqueira, ele jovem, negro e professor de dança, ela idosa, branca e aluna dele, bailaram um envolvente tango argentino. Os sestros e meneios ágeis de Junqueira a dançar, improváveis para alguém tão entrado em décadas, foram uma manifestação concreta e malemolente da força vital das artes.

No último ato da noite, Gambucci convidou Enézio a conduzir o público em uma grande aula de dança. Como se não fosse um improviso, os organizadores do festival, os artistas e a plateia recolheram depressa as cadeiras do teatro, abrindo uma pequena pista de dança em frente ao palco. Ali, quase todos dançaram forró e coreografias pop dos bailes dos anos 80, sob a batuta do mestre-bailarino. A exceção foi o estudante de Direito Luiz Augusto de Oliveira, que cruzava o salão aos rodopios, com os braços erguidos. “Eu prefiro as danças aleatórias”, justificou-se. Nem precisava.

O 10º Festival Internacional de Artes de Cambuquira foi a afirmação de uma filosofia de vida que tem as artes e a sensibilidade como fundamento e utopia: o fundamento de uma cultura superior em humanidade e tolerância, que dê azo à utopia de uma civilização.

*Por Lelo de Brito

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DROGARIA ARAUJO ABRE 59 VAGAS DE EMPREGO NO INTERIOR

Contratações serão feitas para vários cargos, de gerentes à vendedores, em 13 cidades do interior de Minas A Drogaria Araujo está com 59 vagas de emprego abertas nas cidades de Varginha, Lavras, Nova Serrana, Formiga, Juiz de Fora, Ouro Preto, Ubá, Barbacena, Conselheiro Lafaiete, Itabirito, Pará de Minas, São João del Rei e Viçosa.  As oportunidades de emprego são para os cargos de gerente e subgerente de loja, vendedor, fiscal de loja, operador de caixa e repositor de mercadorias. O processo seletivo ocorrerá até o fim de janeiro de 2020, e os interessados devem cadastrar o seu currículo no site www.trabalhenaaraujo.com.br .  Para se candidatar as vagas é necessário ter disponibilidade para trabalhar nos finais de semana e feriados e disponibilidade de horário. A Drogaria Araujo desenvolve o Programa Incluir e informa que Pessoas com Deficiência (PCD) poderão concorrer a essas vagas. A empresa garante benefícios para todas as funções, como assistência médica,...

MG INVESTE R$2 MILHÕES EM RODOVIAS

Bom Sucesso, São Tiago e Nazareno serão contempladas A região do Campo das Vertentes será contemplada com cerca de R$2 milhões para o melhoramento e pavimentação das rodovias estaduais MG-355, no trecho entre São Tiago, Mercês de Água Limpa e Bom Sucesso, com 45 quilômetros de extensão, e na LMG-841, que liga Mercês de Água Limpa a Nazareno, em um percurso de 24 quilômetros. Os recursos para obra serão provenientes do Tesouro Estadual, de acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop). A assessoria informou ainda que o processo do trecho entre Mercês de Água Limpa e Nazareno está mais adiantado, pois o Governo de Minas já autorizou no dia 20 de abril a empresa Engenheiros e Economistas Consultores (Enecom S.A.), ganhadora da licitação, a começar a elaborar o projeto para a LMG-841 orçado em quase R$800 mil. Já na MG-355, de 45 quilômetros, ainda está sendo definido o valor que será disponibilizado para a recuperação da via, i...

CESULLAB COMPLETA PRIMEIRO ANO DE VIDA TRANSPIRANDO INOVAÇÃO

O primeiro ano foi movimentado para o CesulLab, hub de inovação que nasceu em março de 2020 com o objetivo de trazer o conceito de inovação aberta para a região do Sul de Minas. Gerando conexões entre os mais diversos setores do mercado e trabalhando a transformação cultural nas empresas, o CesulLab tem apoiado a solução de problemas e provocado a evolução de organizações da nossa região. Neste primeiro ano, o CesulLab recebeu diversas visitas de autoridades, sendo a principal delas do governador do estado de Minas Gerais, Romeu Zema, que compareceu ao Lab para a assinatura do Decreto de Liberdade Econômica de Varginha. Momento em que reforçou a importância do hub para a cidade e região. Com o intuito de desenvolver todo o ecossistema de inovação, o CesulLab realizou dezenas de eventos online, eventos presenciais, apresentações de startups, ofertou cursos, segue desenvolvendo programas de fomento e atua com 12 verticais de negócios e 16 empresas neste período. O CesulLab em 12 meses im...