Pular para o conteúdo principal

O CAOS EM TRÊS CORAÇÕES

PREFEITURA ALEGA FALTA DE RECURSOS E TRANSFERE RESPONSABILIDADE PARA OS GOVERNOS DE MINAS E FEDERAL
Morador da Vila Viana deixa o barco a postos, caso a água suba mais

Alagada há uma semana, Três Corações, cidade do sul de Minas Gerais onde Pelé nasceu, está devastada. Ano após ano, os moradores sabem que vão perder alguma coisa por causa das chuvas de janeiro. O aposentado José Gabriel da Cruz, de 74 anos, conta que há 35 anos presencia os desastres causados pela força das águas, na Vila Viana, bairro simples da cidade do craque, às margens do rio Verde. Hoje, Três Corações é uma das cidades de Minas mais afetadas pelas chuvas. E não há sinal de que a situação vá melhorar.

Conformado com a situação, todos os anos ele retira os móveis de sua casa para evitar perdas, como ocorreu no ano 2000. “Os bombeiros vieram e pediram para a gente sair, mas eu não tenho medo. Já estou acostumado e sei que não há perigo", conta ele. "No ano 2000, perdi móveis e colchões. Neste ano, minha filha teve a casa alagada e saiu. Meu neto, que mora em outra casa aqui do bairro, também saiu. Eles ainda não voltaram porque a água não baixou. Eu vivo com as enchentes há 35 anos”, contou o aposentado, já acostumado com as cheias do rio. De acordo com a prefeitura, o rio Verde chegou a subir oito metros. Outro rio da cidade subiu seis metros.

A rodoviária também foi parcialmente atingida pelas fortes chuvas nos últimos dias. O engenheiro Fábio Savioli, 44 anos, disse ter medo que uma tromba d´água piore a situação. “Todo ano é isso. Todo ano as famílias saem, mas este ano foi pior que no ano passado. Nessa hora o prefeito fala que não adianta, masque vai tomar providência”, lamentou.

Famílias perdem a casa
Ilhadas, as famílias recebem mantimentos levados de barco pelos bombeiros. O Exército ajuda no trabalho com barcos a motor, enquanto pescadores emprestam seus barcos a remo para minimizar o sofrimento dos atingidos. Moradora do bairro vizinho ao Carranca, a manicure Keli Cristiane da Silva, 24, teve parte dos fundos de sua casa alagada pela cheia do rio Verde. Como Fábio Savioli, ela disse que as perdas neste ano pioraram, em comparação com 2010.

A situação mais crítica em Três Corações é no bairro Cinturão Verde, onde cerca de 40 famílias estão desabrigadas há 10 dias. Natalino Silvestre Barbosa, 32 anos, desempregado, decidiu acampar às margens da cheia do rio, com aproximadamente 10 cachorros. Ele mora com os sogros e a filha e há 15 anos constata os problemas causados pelas enchentes. Os parentes dele estão em abrigos improvisados na cidade, em escolas e igrejas. Ao todo, são 16 abrigos.

A prefeitura estima que mais de 800 pessoas estejam desabrigadas e desalojadas em Três Corações, cidade com pouco mais de 70 mil habitantes. O presidente da Defesa Civil e secretário de Meio Ambiente, Marcelo Murad, avisou que o município está preparado para abrigar mais 70 pessoas. “Pelo boletim que estamos acompanhando, ainda teremos chuva até na sexta-feira. Quando a água baixar é preciso estar atento para que as famílias não voltem imediatamente. É preciso fazer uma higienização antes”, avisou.

Alerta contra saques
No bairro Cinturão Verde, moradores decidiram montar um esquema de vigília. Eles contam que há roubos de fiação elétrica das casas, aparelhos de TV, antenas parabólica a até geladeiras, que boiam nas sujas águas que invadiram as ruas. “Não deu tempo de tirar tudo da minha casa. Perdi sofá, cama, televisão, cômoda. Além disso, ainda tem gente roubando fiação e utensílios que bóiam nas águas”, contou o desempregado Natalino.

Muitas vias da cidade estão interditadas por causa do alagamento de 13 bairros. Ao passar pelas ruas das áreas mais atingidas, baratas e muito lixo dividem espaço com a perplexidade dos moradores. Por causa da sujeira, há riscos de doenças e a prefeitura providenciou vacinas antitetânica e de febre amarela.

O presidente da Defesa Civil e secretário de Meio Ambiente transfere a responsabilidades de investimentos em prevenção para os governos estadual, comandado por Antonio Anastasia (PSDB), e federal, chefiado por Dilma Rousseff (PT). Ele informou que a Secretária de Meio Ambiente foi criada na atual administração, do prefeito Fausto Ximenes (PSDB), e que a prefeitura possui infraestrutura para elaboração de projetos, mas faltam recursos. “Os governos do estado e federal investem muito mais em reconstrução do que em prevenção”, reclamou, emendando que a prevenção se restringiu à capacitação de funcionários da Defesa Civil.

Alexandre da Silva, 36, desempregado, morador do Cinturão Verde, lamenta que o auxílio com cestas básicas se restrinja aos ocupantes de abrigos. Quem optou por ficar em casa de parentes não tem acesso à ajuda humanitária. Além disso, ele reclama que a ajuda tem sido insuficiente. “Sei que estão distribuíndo poucas cestas básicas para muitas famílias. Há muita solidariedade, mas ainda falta comida. O povo não precisa de cesta básica, o povo precisa de melhoria”. Questionado sobre a fama de Três Corações por causa de Pelé, Alexandre Silva foi direto. “Para fazer estátua do Pelé tem dinheiro, mas para fazer melhoria para o povo não tem”, finalizou, decepcionado.
por Denise Motta, do Portal IG

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

INSEGURANÇA NO CAMPUS

Nas últimas semanas aumentou os casos de crimes ocorridos no campus da UFLA. Setor 'sensível', segurança interna sofreu redução de gastos com mudança do quadro funcional  Segurança interna foi uma das primeiras a sofrer baixas na politica de redução de gastos e prioridades A segurança pública é uma das grandes preocupações da sociedade brasileira. Mesmo municípios pequenos e as zonas rurais estão vivenciando o aumento alarmante da prática de crimes contra o patrimônio e a vida. E nos campi das instituições federais de ensino superior (IFES) a situação não tem sido diferente. A comunidade acadêmica da Universidade Federal de Lavras (UFLA) tem vivido às voltas nas últimas três semanas com uma onda de crimes praticados dentro do campus. Os fatos ocorridos tem se concentrado na região do Ginásio Poliesportivo e do setor de Hidráulica, na parte de baixo do campus, em uma região onde existem passagens para o perímetro urbana da cidade e bairros vizinhos. Até o...

ESTUDANTE DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS NECESSITA DE DOADOR COMPATÍVEL DE MÉDULA ÓSSEA

A estudante de Medicina da Universidade Federal de Lavras (UFLA) Giovana Baptista Caldas, 27 anos, está à espera de um doador compatível de medula óssea.  Diagnosticada com leucemia mieloide aguda em abril, a estudante está na cidade de Nova Lima para tratamento médico. Após sentir desconfortos constantes, Giovana compareceu à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Lavras e, após encaminhamento para o hospital Vaz Monteiro e a realização de exames minuciosos, chegou ao diagnóstico da doença.  Em poucos dias, deu início ao tratamento com quimioterapia no hospital Biocor, a 20km da capital mineira, onde está atualmente. A busca por um doador compatível ocorre por meio do Registro Nacional de Receptores de Medula Óssea (Rereme), o qual faz a busca automática no Registro de Doadores de Medula Óssea (Redome). A cada novo doador ou paciente cadastrado, a compatibilidade é verificada entre os dois sistemas. A chance de encontrar um doador compatível na famíl...

BAIRRO DE IJACI ESTÁ SEM ÁGUA HÁ 9 DIAS

Moradores não sabem mais a quem recorrer O município de Ijaci, no Sul de Minas, tem experimentado um grande crescimento urbano nos últimos anos. Este crescimento, aliado a intensa especulação imobiliária, se dá sobretudo após a instalação da fábrica de cimento e com o surgimento do reservatório da Usina Hidrelétrica do Funil, formando um imenso lago que banha entre outras cidades, o município de Ijaci. Diante disso, surgiram diversos problemas, sendo que muitos ainda se encontram diante da omissão ou mesmo ineficiência por parte do poder público local. É o caso do sistema de abastecimento de água e tratamento de esgoto em Ijaci. Os moradores do bairro Córrego Pintado em Ijaci, no Sul de Minas, não sabem mais o que fazer com a falta d'água em suas residências. Já são 9 dias sem água nas torneiras, o que tem dado uma enorme dor de cabeça aos moradores do bairro. De acordo com o documento  de 2018 do Plano Municipal de Saneamento Básico de Ijaci (PMSB), ano que em foi prop...