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PESQUISA SOBRE ALFABETIZAÇÃO NA PANDEMIA MOSTRA REALIDADE DE ALUNOS E PROFESSORES


O desafio de aprender e ensinar a ler e a escrever, durante a pandemia, recebeu atenção especial de pesquisadores de todo o Brasil, que buscaram compreender de forma aprofundada a situação da alfabetização de crianças neste período. Coordenado pela professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ), Socorro Alencar Nunes Macedo, o grupo promoveu a pesquisa Alfabetização em Rede: uma investigação sobre o ensino remoto da alfabetização na pandemia da covid-19. Os resultados ainda estão sendo consolidados, mas já é possível conferir alguns dados neste primeiro relatório.

Ao todo, três escolas do Campo das Vertentes foram acompanhadas pela pesquisa, sendo duas em São João del-Rei e uma em Tiradentes, além de outras duas turmas em uma escola do Ceará. As experiências e dificuldades enfrentadas pelos professores no contexto da pandemia foram refletidas nos levantamentos. Um dos resultados que surpreendeu os pesquisadores foi a descoberta que 71,58% dos docentes entrevistados responderam que as salas de aula, durante o ensino remoto, se reduziram a grupos de Whatsapp, formados entre os professores e os pais dos alunos.

De acordo com a coordenadora do estudo, Socorro Nunes, com o prolongamento da pandemia, buscou-se pensar a educação pública em contexto digital, adotado como solução pelas escolas para minimizar os impactos no ensino das crianças em fase de alfabetização. “Entre tantas percepções, foi possível verificar as condições precárias enfrentadas por muitos professores e alunos para conseguir acompanhar as atividades. Os grandes limites impostos pela desigualdade social impactaram negativamente essas condições. Também percebemos o empenho dos docentes em disponibilizar atividades interessantes para estimular o aprendizado”, explica.

Em São João del-Rei, a professora da Escola Estadual Deputado Mateus Salomé, Rosilene Cunha da Trindade, recebeu o acompanhamento do estudo, no decorrer das atividades realizadas com os 28 alunos, de 5 a 6 anos. Em sua opinião, a pesquisa mostrará à sociedade e aos governos como o processo de alfabetização vem sendo realizado no sistema on-line. “O estudo permitirá que os desafios e as precariedades enfrentadas pelos professores e alunos possam ser conhecidos, além das dificuldades de acesso e da defasagem de muitas crianças. Por outro lado, também irá contribuir para que o formato remoto seja repensado, visando fortalecer as ferramentas disponíveis e promover a preparação de docentes e das famílias.”

Ana Paula Cordeiro, professora da Escola Municipal Padre Lourival de Salvo Rios, localizada em Tiradentes, lecionou para 14 alunos de 5 a 6 anos e também foi acompanhada pelo projeto. Para a docente, a pesquisa será extremamente importante para o desenvolvimento de novas políticas de alfabetização. “Nunca havia sido realizada nenhuma experiência de alfabetização a distância ou remota, algo inédito em nossa realidade. O estudo veio mostrar como a relação com o aluno foi reconstruída nesse novo contexto e como o elo foi restabelecido durante esse percurso, apresentando as dificuldades encontradas por pais e estudantes.”

Ana Paula destaca ainda que é essencial que os dados da pesquisa sejam divulgados, pois poderão contribuir para o planejamento da alfabetização das crianças das escolas públicas. “O estudo também representa uma nova parceria entre a escola e a Universidade, na qual é possível caminhar nas estratégias do processo de alfabetização, estabelecendo critérios de como agregar às atividades as novas ferramentas disponibilizadas pelas novas tecnologias”, completa.

A pesquisa
O estudo reuniu 117 pesquisadores de 29 universidades brasileiras. Ao todo, 14.730 docentes de 18 estados do país participaram da pesquisa, realizada em três etapas, com o objetivo de mostrar a realidade da alfabetização no contexto da pandemia e do ensino remoto. Em um primeiro momento, foram aplicados questionários. Posteriormente, rodas de conversa foram promovidas com grupos de seis professores, visando aprofundar os dados coletados. Na terceira fase, salas de aulas virtuais foram acompanhadas por pesquisadores, permitindo a observação do dia a dia das atividades propostas pelos professores aos alunos.

O trabalho realizado já rendeu mais frutos. O conteúdo é tema de duas dissertações de mestrado que vêm sendo desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSJ. Atualmente, o grupo de estudo pleiteia bolsa para que um estudante da área de Estatística seja agregado à equipe.

E vem mostrando também sua importância, por meio da mídia e de participações em debates. O jornal O Estado de S.Paulo trouxe uma série de matérias sobre a alfabetização na pandemia e destacou os resultados da pesquisa. A Revista Fórum promoveu debate com o tema Exclusão escolar na pandemia, no qual a professora Socorro Nunes esteve presente e contribuiu com as discussões.

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