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GONÇALVES, NA MANTIQUEIRA MINEIRA, RECEBE INÉDITA MOSTRA DE LITERATURA E ARTE


Em plena temporada de inverno, entre 5 de julho e 24 de agosto, a acolhedora cidade de Gonçalves, no sul de Minas Gerais, em meio à Serra da Mantiqueira e perto da divisa com o Estado de São Paulo, é cenário da inédita MoLA – Mostra de Literatura e Arte. Em sua primeira edição, na recém-inaugurada Galeria Art Dialogues, a mostra tem como tema "Imprudentemente Poéticos", transformando em arte, em suas mais diversas manifestações, a profundidade literária do escritor contemporâneo português Valter Hugo Mãe, Prêmio Literário José Saramago (2007), concedido pelo romance “O Remorso de Baltazar Serapião”, que o próprio Saramago descreveu como um “tsunami literário”.

“A MoLA é uma ideia viva, feita por pessoas que colocam presença, escuta e afeto em cada gesto. Já ‘Imprudentemente Poéticos’, tema desta primeira edição da mostra, é um convite à deriva poética e sensível por meio da obra de um dos maiores escritores contemporâneos da língua portuguesa. Na exposição, não queremos apenas exibir obras inspiradas nos livros de Hugo Mãe, mas expandir os sentidos possíveis para cada leitura, em uma travessia entre literatura e artes visuais", afirma Rui Neuenschwander, idealizador e um dos dois curadores da exposição.

Em meio às montanhas e/ou dentro de ateliês, em outras localidades, 15 artistas consagrados e novos criadores, seis deles atualmente radicados em Gonçalves — Cynthia Gavião, Eliana Carvalho, Elias Mota, Paulo Otero, Popoke e Thais Beltrame —, foram convidados a traduzir, além das palavras, a essência das obras de Hugo Mãe, criando peças que ecoem sua sensibilidade. De linguagens diversas, eles interpretam 13 livros do autor, abrindo frestas e rasgos entre a literatura e as artes visuais.

O seleto time de artistas e livros de Hugo Mãe que os inspiraram compõe-se de Alexandra Ward ("A Desumanização"), Cynthia Gavião ("Homens Imprudentemente Poéticos"), Eliana Carvalho ("O Nosso Reino"), Elias Mota ("Cantos de Cães e Maus Lobos"), Jonas Meirelles ("Contra Mim"), Ju Violeta ("A Desumanização"), Manu Maltez ("O Remorso de Baltazar Serapião"), Paulo Otero ("O Paraíso São os Outros"), Popoke ("O Filho de Mil Homens"), Revista Comando ("O Apocalipse dos Trabalhadores"), Tuscha ("As Doenças do Brasil" e "Homens Imprudentemente Poéticos"), Rogério Blach ("Deus na Escuridão"), Ruzembergue Carvalho ("A Máquina de Fazer Espanhóis"), Thais Beltrame ("O Nosso Reino") e William Mophos ("Serei Sempre o Teu Abrigo").

Cada artista, ao escolher um dos livros (ou ser escolhido por ele), mergulhou em suas atmosferas — sejam elas melancólicas, oníricas, absurdas, líricas ou brutais. “A escrita de Hugo Mãe, que atravessa temas como identidade, pertencimento, infância, morte, amor, exílio e linguagem, é fértil porque convida à reinvenção", pontua Anita Goes, cocuradora de “Imprudentemente Poéticos”.

Obras exclusivas e pela primeira vez em exibição
A multiplicidade de suportes e de abordagens é parte essencial da proposta. Todas elas exclusivas para a 1ª edição da MoLA, há obras que trabalham com a palavra como matéria visual: textos que se transformam em desenho, caligrafias que ganham volume, frases que se tornam objetos. Outras se apoiam na narrativa, recriando cenas, atmosferas ou sentimentos evocados pela leitura. Algumas preferem o caminho da abstração, buscando traduzir estados emocionais, ritmos, pausas e silêncios. Outras, ainda, se apoiam na materialidade — a madeira, a cerâmica, a fibra, a terra — para construir metáforas táteis daquilo que as palavras sugerem.

Entre os destaques da 1ª MoLA estão duas obras do belo-horizontino Tuscha. “Honra” é um impactante óleo sobre pele de onça, que foi presenteada em 1989 ao artista por Lourival, sogro de Davi Kopenawa, da comunidade indígena Watoriki. “Passaram-se 36 anos e a pele foi se deteriorando. Não queria perdê-la, queria que ela mantivesse a sua dignidade. Daí surgiu a ideia do seu uso como base para realizar o trabalho inspirado no livro ‘As Doenças do Brasil’”, explica o artista. Já “O Perdão é Um Pássaro Que Pousa” porta consigo toda a sensibilidade poética de “Homens Imprudentemente Poéticos”. Sobre madeira de janelas e portas de demolição, com técnica mista de óleo, colagem, incrustações e imagem, Tuscha revela a sua visão da bandeira de amor atemporal do oleiro Saburo, do sofrimento psíquico do artesão Itaro, e de uma das representações mais linda do perdão já escrita, vivenciada pela irmã cega do artesão ao ser abandonada por ele.

“Sismografias”, a série de nanquim, aguada e guache sobre papel de Manu Maltez — artista paulistano de múltiplas linguagens, sobretudo música e artes visuais —, com base em "O Remorso de Baltazar Serapião", apresenta a ambiguidade instinto e psiquismo, liberdade e repressão, movimento e morte que caracterizam seus trabalhos. Formado por Frederico Heer e Guilherme Boso, o coletivo de artes gráficas Revista Comando, de São Paulo, expõe o contundente “Caixão Apocalipse V.H.M”. No painel de xilogravuras, a obra inspirada no livro "O Apocalipse dos Trabalhadores" tece uma intrincada trama de símbolos celestiais e terrenais, confrontando a lógica perversa que qualifica a existência pela exaustão e a paz pelo desaparecimento. E a disposição escultural do caixão, construído a partir das matrizes que forjaram a própria imagem que vemos ao seu redor, eleva a obra a um patamar de indagação formal, conferindo à morte uma materialidade insuspeita, uma "bela" e irônica concretude.

Entre os artistas residentes em Gonçalves e presentes na mostra, há Eliana Carvalho. A partir da leitura de “O Nosso Reino", sua “Crença” traz um anjo representado pela madeira marcada pelo fogo, envolto em arame farpado, a revelar, de forma inconteste, o aprisionamento da condição humana às imposições da própria existência, em uma luta constante em busca do sublime. Já "Poço", a peça criada por Cynthia Gavião inspirada em “Homens Imprudentemente Poéticos”, também moradora na cidade, reflete com muita delicadeza e sensibilidade o livro que a inspirou, quer seja pela temática oriental do texto, em que o Hugo Mãe externaliza os dilemas dos personagens com um jogo de claro e escuro, seus medos, fantasmas e fantasias, quer seja pela inversão conceitual entre os aspectos de dentro e fora, criando um poço externo à superfície.

Finalmente, “O Vazio Pertencente”, a obra do duo Popoke, integrado por Eduardo Aleixo Castanheira e Natália Rocha, de Gonçalves, encontra também na madeira um modo singular de narrar afetos diversos. A peça evoca a imagem de um barco à deriva, que afunda lentamente, uma metáfora potente para os vínculos frágeis, quebrados ou ainda por construir que atravessam o romance que tem Crisóstomo como figura central de "O Filho de Mil Homens" — a madeira, longe de ser apenas matéria bruta, torna-se brinquedo, sonho, fábula: as velas do barco são também mãos que abraçam e afagam.

Além de se constituir em uma plataforma inclusiva para a exposição de obras de talentos locais ou não, antes de sua inauguração a MoLA promove um concurso de redação e desenho que envolve alunos do 9º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio das escolas públicas do município, contribuindo para a formação de leitores de Hugo Mãe e da literatura de língua portuguesa.

SERVIÇO
MoLA – Mostra de Literatura e Arte: 1ª Edição “Imprudentemente Poéticos”
Período:
de 5 de julho (sábado) a 24 de agosto (domingo)
Horários: em julho, de quinta a domingo, das 10 às 18h; e em agosto, de sexta a domingo, das 10 às 18h
Local e endereço: Gabinete de Curiosidades/Art Dialogues, Rua Maestro Herculano, 101, Centro, Gonçalves (MG)
Website: www.mola.art.br / Instagram: @mola_mostradeliteraturaearte

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