Pular para o conteúdo principal

NÃO, EU NÃO POSSO TER CABELO CURTO


Desde metade de 2016, houve um BOOM de garotas de cabelos curtos ou raspados. E isso foi um passo importantíssimo ao empoderamento feminino. 

Totalmente contrário ao que a sociedade havia criado estereotipadamente para elas, as mulheres estavam chutando o balde e se tornando livres para serem como queriam ser, ignorando a pressão masculina sobre como elas deviam se vestir ou se portar. E como tudo isso eclodiu na mesma época, o apoio mútuo entre elas foi fundamental.

Eu moro com duas garotas de cabelo raspado, e particularmente acho maravilhoso. Recentemente, fui questionada por uma colega de trabalho: “Agnes, você acha cabelo longo fundamental?” Meu cabelo é comprido, mais ou menos um palmo e meio abaixo do ombro. Naquele momento, também me perguntei: Porque não ter um cabelo curtinho? seria tão mais fácil de cuidar, me pouparia as 3 horas semanais fazendo chapinha, fora sensação maravilhosa de sentir o ventinho na nuca. 

Porém, nesse mesmo momento, todos esses pensamentos maravilhosos foram subitamente interrompidos por uma outra questão: As pessoas respeitariam o meu gênero se eu tivesse o cabelo curtinho ou raspado? E quando me pergunto isso, não me refiro aos amigos e colegas de faculdade, mas sim sobre a moça da padaria, o atendente da farmácia, o porteiro da minha faculdade. Eles ainda me veriam como mulher?

Mais ou menos na metade do ano passado, num desses grupos de facebook que participo, lembro-me de ter visto o relato de uma garota trans que trabalhava na cozinha de um fast food em São Paulo. 

Apesar de possuir um crachá com nome social, que ela conseguiu depois de muita luta, ela escreveu que todas as vezes que ia trabalhar de calça jeans, as pessoas do trabalho a tratavam no masculino. 

Apesar de questionar sem muito êxito, percebeu que era obrigada a ir trabalhar de vestido ou saia todas as vezes se quisesse ter seu gênero respeitado, apenas porque os seus colegas de trabalho se recusavam a respeitá-la quando ela fugia do vestiário tido como feminino. 

Dessa maneira percebi que nós pessoas trans, que não conseguimos passar por pessoas cis, estamos presos nos estereótipos de gênero de tal forma, que qualquer leve desvio, pode ser a chance das pessoas simplesmente ignorarem quem somos. 

Claro, que a maioria de nós está confortável seguindo esse protocolo de gênero, porém, as coisas são bem menos flexíveis para nós que para as demais pessoas. 

Se uma de minhas amigas cisgêneras quiser sair de calça, moletom e boné por aí, ninguém vai tratá-las diferente por isso. 

O mesmo já não posso dizer caso eu saia desse jeito. Portanto, não, infelizmente eu não posso ter cabelo curto, ou sair sem maquiagem. Nem os meninos trans podem ser afeminados, ou nem ter cabelos longos. 

Pelo menos não sem pagar o preço. Porque isso pode nos custar o mínimo que precisamos que é o respeito sobre quem a gente é. Claro que uma série de questões podem influenciar, mas eu, Agnes, não me sentiria segura saindo por aí de cabelo curto ou sem maquiagem, justamente porque eu não saberia lidar com as consequências. 

Se do jeito que estou hoje, depois de tanto caminho até chegar em onde estou agora, e seguindo todo esse protocolo implícito de “feminilidade”, ainda sou frequentemente questionada, já podemos imaginar como a sociedade reagiria a Agnes andando por aí de cabelo curtinho né. 

Certamente, boa parte das pessoas que estão lendo esse texto vão ter o pensamento clássico de que não devemos nos importar com o que os outros pensam, que devemos ser autênticos e seguros sobre quem somos, porém quando é a sua existência, e a sua identidade que está em jogo, o fardo é pesado demais para que a gente queira arriscar.

por Agnes Reitz

Comentários

Anônimo disse…
So se for em redes sociais...

Postagens mais visitadas deste blog

DROGARIA ARAUJO ABRE 59 VAGAS DE EMPREGO NO INTERIOR

Contratações serão feitas para vários cargos, de gerentes à vendedores, em 13 cidades do interior de Minas A Drogaria Araujo está com 59 vagas de emprego abertas nas cidades de Varginha, Lavras, Nova Serrana, Formiga, Juiz de Fora, Ouro Preto, Ubá, Barbacena, Conselheiro Lafaiete, Itabirito, Pará de Minas, São João del Rei e Viçosa.  As oportunidades de emprego são para os cargos de gerente e subgerente de loja, vendedor, fiscal de loja, operador de caixa e repositor de mercadorias. O processo seletivo ocorrerá até o fim de janeiro de 2020, e os interessados devem cadastrar o seu currículo no site www.trabalhenaaraujo.com.br .  Para se candidatar as vagas é necessário ter disponibilidade para trabalhar nos finais de semana e feriados e disponibilidade de horário. A Drogaria Araujo desenvolve o Programa Incluir e informa que Pessoas com Deficiência (PCD) poderão concorrer a essas vagas. A empresa garante benefícios para todas as funções, como assistência médica,...

MP DENUNCIA 25 PESSOAS NA SEGUNDA FASE DE OPERAÇÃO CONTRA FALSIFICAÇÃO DE MEDICAMENTOS EM CAMPO DO MEIO

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) Regional de Passos e da 1ª Promotoria de Justiça de Campos Gerais, ofereceu denúncia contra 25 pessoas no âmbito da segunda fase da Operação Reação Adversa. A investigação apurou a prática de crimes relacionados à falsificação de medicamentos veterinários e à posterior comercialização dos produtos em plataformas de comércio eletrônico por uma organização criminosa instalada em Campo do Meio, no Sul de Minas. Nesta segunda fase da operação, os denunciados foram acusados pelos crimes de organização criminosa e de falsificação, depósito, venda ou exposição à venda de produtos destinados a fins terapêuticos ou medicinais. Dois investigados também foram denunciados pelo crime de ameaça contra um advogado de uma empresa farmacêutica. Segundo as apurações, a organização criminosa era estruturada em rede e composta por 13 núcleos, que atuavam com compartilhamento de informa...

PROJETO DE LEI MIRA ROTINA DAS REPÚBLICAS DE LAVRAS E PENALIZA PROPRIETÁRIOS DE IMÓVEIS

Festas em imóveis residenciais com cobrança de ingressos serão proibidas. Proposta não foi aberta para discussão com a sociedade local Pressa: Projeto já será votado na próxima reunião da Câmara Municipal Após a maioria dos vereadores da Câmara darem uma Lei Delegada para o prefeito José Cherem (PSD) governar com amplos poderes, sem fazer alarde, agora está em tramitação acelerada naquela Casa Legislativa de Lavras, no Sul de Minas, um projeto de lei que vai atingir em cheio a rotina principalmente das repúblicas da cidade. O Projeto de Lei 06 de 2017, de autoria do vereador Coronel Claret (PSD), trata sobre a perturbação do sossego pelo uso anormal da propriedade. De acordo com o PL, a fonte ou o fato gerador da perturbação do sossego poderá estar localizado no interior do imóvel ou estendendo-se pela calçada ou via pública. As pessoas físicas e jurídicas que causarem perturbação do sossego pelo uso anormal da propriedade e que não atenderem a notificação gerada pelos...