Estudo da UFLA identifica bactéria resistente a antibióticos circulando entre humanos e animais
Uma bactéria comum no intestino de pessoas e animais pode se transformar em um risco real à saúde pública quando adquire resistência a antibióticos. Esse é o alerta de um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Lavras (UFLA), que identificou cepas alarmantemente resistentes de Escherichia coli e indícios claros de circulação dessas bactérias entre diferentes espécies.O dado mais preocupante é que as análises genômicas apontam proximidade genética entre cepas isoladas de humanos e de animais. Isso indica que a bactéria pode circular entre pessoas, rebanhos e o ambiente, dificultando o controle das infecções e ampliando o risco sanitário.
Sobre a pesquisa
Intitulada “Análise genômica comparativa de cepas patogênicas de Escherichia coli isoladas de diferentes hospedeiros sob a perspectiva da Saúde Única”, a pesquisa conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e é gerenciada pela Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC).
O estudo analisou mais de 100 amostras da bactéria, coletadas de humanos, animais de produção como bovinos e búfalos, animais de companhia — especialmente cães — e animais silvestres. Todas passam por sequenciamento genético completo, permitindo identificar genes associados à virulência, à resistência a antibióticos e ao grau de parentesco entre cepas.
Resistência que preocupa médicos e veterinários
Segundo a coordenadora do projeto, a professora Elaine Dorneles, a resistência antimicrobiana é um dos achados mais críticos.
“Nós já identificamos amostras resistentes a antimicrobianos, o que dificulta o tratamento tanto de infecções humanas quanto de animais”, explica.
Esse cenário aumenta o risco de infecções mais graves, tratamentos ineficazes e maior pressão pelo uso de antibióticos.
Impacto direto no campo e na produção leiteira
Na produção leiteira, a Escherichia coli está entre as principais causadoras de mastite ambiental, uma infecção que provoca dor, inflamação, descarte de leite, queda na produção e prejuízos econômicos aos produtores.
A médica-veterinária Maisa Serpa Gonçalves, pós-doutoranda da UFLA e integrante da equipe do projeto, explica que a bactéria está presente em praticamente todas as propriedades rurais, favorecendo a infecção durante o manejo diário dos animais.
Saúde Única: um problema compartilhado
A pesquisa reforça o conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece que a saúde humana, animal e ambiental estão interligadas. Uma bactéria resistente pode chegar às pessoas por meio do contato direto com animais, do consumo de alimentos contaminados, como leite cru e carnes mal passadas, da higiene inadequada ou do ambiente compartilhado. O caminho inverso também ocorre, com humanos transmitindo microrganismos resistentes aos animais.
Do laboratório ao produtor rural
Além da produção científica, o projeto atua fortemente em extensão, por meio do Laboratório Integrado de Sanidade Animal e Saúde Coletiva (LISASC), que realiza diagnósticos e oferece orientação técnica aos produtores, indo além do laudo.
Essa atuação contribui para o uso mais responsável de antibióticos, melhora o bem-estar animal e reduz riscos à saúde humana.
Mensagem central da pesquisa
Mesmo em andamento, o estudo já reforça um alerta importante: prevenir é tão importante quanto tratar. Compreender como bactérias resistentes circulam entre humanos e animais é essencial para orientar boas práticas, políticas públicas e decisões conscientes.
*Da assessoria
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