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PRODUÇÃO DE MORANGOS CRESCE 868% E PRESSIONA PRODUTORES

 ESCRITO POR FERNANDA TEIXEIRA, CARLA ARANTES E JULIANA CAMPOS

12/03/2026 . SISTEMA FAEMG 

Produto vindo do Egito chega ao país com preços abaixo do custo de produção nacional e ameaça a renda de agricultores familiares

O avanço das importações de morango, principalmente do Egito, tem acendido um alerta entre produtores e representantes do setor agropecuário em Minas Gerais. Nos últimos anos, a entrada do produto estrangeiro a preços mais baixos tem pressionado a produção nacional e levantado preocupações sobre concorrência desleal e sustentabilidade econômica da cadeia produtiva. Segundo a analista de agronegócio do Sistema Faemg Senar, Mariana Marotta, a importação de morango no Brasil cresceu 868% nos últimos anos.

“Parte desse avanço está ligada ao acordo comercial firmado em 2010 entre o Mercosul e o Egito para ampliar o comércio bilateral. O processo foi regulamentado em 2017 pelo Decreto nº 9.229, que estabeleceu a redução gradual das tarifas de importação. A partir de 2022, o morango passou a entrar no mercado brasileiro com preços ainda mais competitivos e foi quando as importações começaram a crescer significativamente”, explica.

A diferença de preços ajuda a explicar o avanço do produto importado. No Egito, segundo apresentado em audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o quilo do morango é vendido no mercado interno por cerca de 90 libras egípcias, o equivalente a aproximadamente R$ 15. Para exportação, no entanto, o valor cai para pouco mais de R$ 7,50 por quilo. No Brasil, o custo médio de produção gira em torno de R$ 8,50 por quilo, o que, de acordo com produtores, torna a competição praticamente inviável.

Minas lidera produção

Minas Gerais é o principal produtor de morango da América Latina. Em 2023, o estado produziu cerca de 190 mil toneladas da fruta em aproximadamente 4.800 hectares, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A produção se concentra no Sul de Minas, especialmente na microrregião de Pouso Alegre. A atividade tem forte impacto social: 98% dos produtores são da agricultura familiar, envolvendo cerca de 11 mil agricultores e gerando renda e empregos no meio rural.

Apesar da força da produção local, as importações seguem em alta. Em 2025, Minas Gerais importou cerca de US$ 2,3 milhões em morangos e derivados, segundo dados da Agrostat Estatísticas de Comercio Exterior do Agronegócio Brasileiro. O volume chegou a aproximadamente 2 mil toneladas.

No ano anterior, as compras externas haviam somado US$ 658 mil e 743,57 toneladas, o que representa crescimento de 164% em volume.

Pressão sobre os produtores

O aumento das importações, especialmente de morango congelado destinado à indústria, também tem pressionado os preços pagos ao produtor brasileiro.

Em alguns casos, agricultores acabam comercializando a produção abaixo do custo, o que compromete a viabilidade da atividade. Mesmo sem investigação formal, especialistas apontam indícios de práticas comerciais desleais, como dumping, quando produtos são vendidos no mercado externo por valores inferiores aos praticados no próprio país de origem.

A produtora Solange de Oliveira Paiva tem 140 mil pés de morango em Ipuiuna, no Sul de Minas, e explica que a redução maior aconteceu sobre o 'morango de fábrica', que é a fruta vendida para a fabricação de polpa ou suco. "Neste caso, o preço passou de R$ 17, no fim do ano passado, para R$ 8 em fevereiro deste ano. A gente tem que vender a preço de banana", lamenta.

A produtora também relata que a variedade mais comum é o de morango de bandeja, com os frutos mais graúdos, que são produzidos no período mais frio do ano. Na última comercialização, em 2025, ela recebeu de R$ 7 por caixa com quatro cumbucas de morango. Na mesma época do ano anterior, o valor pago variou entre R$ 10 e R$ 13 reais.

Segundo a analista de agronegócio Mariana Marotta a importação de morango cresceu 868% nos últimos anos

Campo das Vertentes

Outra região que se destaca na produção de morangos em Minas é o Campo das Vertentes. No município de Alfredo Vasconcelos, 75% da população de pouco mais de 7 mil habitantes são produtores rurais. São mais de cem hectares plantados com pés de morango. A produção anual chega a 6 mil toneladas, segundo a prefeitura, e, assim como a região Sul do estado, os agricultores por lá também sofrem impactos do aumento da importação de morangos congelados.

Iasmin Ribeiro e Silva trabalha com o pai no cultivo da fruta. No ano passado, o sítio deles foi destaque no programa especial Gestão com Qualidade em Campo (GQC) oferecido pelo Sistema Faemg Senar em parceria com o Sicoob Credivertentes. Mas sete meses após o fim do curso, viram o faturamento despencar devido ao crescimento da concorrência. 

“Parte da produção era vendida congelada e nós perdemos esse mercado. Para tentar escapar dos baixos preços na Ceasa, estamos negociando diretamente com os supermercados”, explica a produtora, que ressalta também o alto custo de produção devido ao preço dos insumos e de pragas e doenças que atacam a lavoura e se mostram cada vez mais resistentes.


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