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Editorial: LAVRAS NO LIMIAR DE UM NOVO CICLO


O legado em construção de Jussara Menicucci e os desafios do futuro

Há momentos em que uma trajetória individual se confunde com a história de uma cidade. Em Lavras — quinta maior cidade do Sul de Minas Gerais, com mais de 104 mil habitantes e índice de desenvolvimento humano que figura entre os cinco mais elevados do estado —, esse fenômeno tem nome e sobrenome: Jussara Menicucci de Oliveira. Nascida na própria Lavras em 1950, advogada e pós-graduada em Gestão Empresarial, ela quebrou barreiras históricas ao se tornar, em 1993, a primeira mulher eleita prefeita do município. Desde então, governou a cidade em quatro mandatos consecutivos e não consecutivos — 1993–1996, 2005–2008, 2009–2012 e 2020–2024 —, e em outubro de 2024 voltou a conquistar a confiança popular com 58,94% dos votos válidos, inaugurando seu quinto mandato em janeiro de 2025. Trata-se de uma longevidade política rara no Brasil contemporâneo, ancorada em aprovação popular consistente — 78,6% de avaliação ótima, boa ou regular nas pesquisas realizadas às vésperas da mais recente eleição —, e que coloca sobre seus ombros uma responsabilidade proporcional à confiança recebida.

Lavras ocupa hoje, objetivamente, uma posição de destaque regional invejável. Além do expressivo IDH, a cidade figura como a segunda mais segura do estado segundo levantamento da empresa MySide; recebeu o Selo Ouro do Ministério da Educação pelo segundo ano consecutivo; e aparece entre as seis cidades que mais se desenvolvem no ranking do Centro de Liderança Pública. O Ranking de Empreendedorismo da Caravela coloca Lavras entre as 44 melhores cidades mineiras para se fazer negócios, com pontuação de 79,9 em indicadores de diversificação e crescimento. O ecossistema acadêmico — capitaneado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), instituição centenária com nota máxima no Índice Geral de Cursos do MEC e polo irradiador de pesquisa em ciências agrárias e tecnologia — confere à cidade uma vitalidade intelectual e econômica singular. Em 2025, a cidade registrou saldo positivo de 383 novos empregos formais e viu a instalação de centenas de novas empresas, consolidando sua condição de capital sub-regional de alta influência no Sul de Minas.

Nesse contexto promissor, o papel da gestão municipal torna-se simultaneamente facilitador e testado. A recente eleição de Jussara Menicucci para a presidência da Frente Mineira de Prefeitos (FMP) para o biênio 2025–2026 revela um reconhecimento que transcende as fronteiras de Lavras: a prefeita passou a ser voz coletiva dos municípios mineiros em Belo Horizonte. Tal projeção estadual é, ao mesmo tempo, oportunidade e responsabilidade. Em seu discurso de posse, Jussara reafirmou o compromisso com infraestrutura, educação, saúde e bem-estar social, prometendo ética, transparência e gestão participativa. O IpêTech — parque tecnológico em articulação com a UFLA e a Fapemig — surge como sinal concreto de que a cidade aspira ao ecossistema de inovação. A aceleração de startups, a aproximação entre academia e setor produtivo e a inserção de Lavras nos debates estaduais sobre ciência e tecnologia indicam uma municipalidade que, sob pressão do tempo, tenta converter potencial em projeto.

Contudo, o olhar rigoroso não pode se contentar com os elogios dos rankings. O próprio levantamento de empreendedorismo aponta que Lavras enfrenta desafios críticos nos quesitos sobrevivência e densidade empresarial — ou seja, muitas empresas abrem, mas sua longevidade e espessura setorial ainda são insuficientes para criar um tecido produtivo robusto. O saldo de empregos formais em 2025 (383 postos) é inferior ao do ano anterior (660), sinalizando uma desaceleração que requer atenção. A forte dependência da economia local em relação à UFLA e ao setor de serviços configura uma concentração de risco.

O horizonte de Lavras nos próximos quatro anos será definido pela capacidade de transformar infraestrutura de ensino e pesquisa em desenvolvimento econômico includente. A Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — que baliza cada vez mais o acesso de municípios a recursos federais e estaduais — exige planejamento territorial, mobilidade urbana, saneamento básico universal e políticas climáticas concretas. Lavras, que sedia fóruns estaduais de ciência e tecnologia e que tem na UFLA uma parceira estratégica em meio ambiente e recursos hídricos, possui capital humano e institucional suficiente para enfrentar essa agenda. Mas é preciso que o executivo municipal traduza a excelência universitária em políticas públicas mensuráveis: parcerias formais com a UFLA para transferência de tecnologia ao agronegócio regional, plano diretor urbano atualizado que contemple habitação e mobilidade sustentável, e programa de retenção de talentos que contraponha a fuga de jovens graduados para centros maiores.

O legado que Jussara Menicucci tem a possibilidade de inscrever na história de Lavras vai muito além dos metros de asfalto ou das unidades de saúde construídas — realizações legítimas, mas perecíveis. O legado duradouro de um quinto mandato só se justifica — e só se consolida — se ele funcionar como plataforma de transição: a construção deliberada de quadros gestores, a profissionalização da burocracia municipal, a criação de instrumentos de participação popular que sobrevivam a qualquer governo e a consolidação de um parque tecnológico capaz de atrair investimento privado de forma autônoma. Uma cidade que produz conhecimento de classe mundial não pode depender de uma única liderança política para se reinventar. O verdadeiro teste do legado de Jussara não está no momento em que venceu mais uma eleição, mas na qualidade da cidade que ela entregará ao seu sucessor — quem quer que seja.

Lavras, enquanto cidade, tem todos os ingredientes para protagonizar um salto qualitativo expressivo na segunda metade desta década: capital humano qualificado, localização estratégica no Sul de Minas, indicadores sociais superiores à média estadual e uma gestão com notória capacidade de articulação interinstitucional. O desafio da prefeita Jussara Menicucci — e, em última instância, da própria sociedade lavrense — é resistir à tentação do gerencialismo do presente e apostar com coragem no planejamento do futuro. Uma cidade que chegou ao quinto mandato de uma mesma prefeita merece, como recompensa, a generosidade histórica de um governo que governe para além de si mesmo. Lavras tem capacidade. A questão é se haverá visão suficiente para convertê-la em destino.

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