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DE LAVRAS PARA O BRASIL: A TRAJETÓRIA DE UM CIENTISTA QUE TRANSFORMOU FLORESTAS EM LEGADO

Professor titular da UFLA há três décadas, José Roberto Scolforo acumula pesquisas pioneiras, gestão universitária de alto impacto e condecorações máximas do país — e segue com novos projetos no horizonte

Há exatamente trinta anos, o professor José Roberto Soares Scolforo chegou à Universidade Federal de Lavras trazendo na bagagem uma sólida formação em Engenharia Florestal e uma vocação incomum: transformar dados de campo em políticas de conservação e produção que atravessassem fronteiras estaduais. Natural de Castelo, no Espírito Santo, Scolforo construiu na cidade mineira a base de uma das carreiras acadêmicas mais prolíficas do país na área de Recursos Florestais — e Lavras, por sua vez, ganhou um pesquisador que ajudou a inscrevê-la no mapa científico nacional e internacional.

A produção científica de Scolforo impressiona pelo volume e pela diversidade: são 815 artigos e trabalhos técnicos publicados, 18 livros, 87 capítulos temáticos e 51 softwares registrados no INPI. No campo das florestas plantadas, desenvolveu modelos de quantificação de estoque de volume, biomassa e carbono, ferramentas hoje indispensáveis para empresas do setor e para o planejamento público. Já no cerrado e na Amazônia, foi um dos pioneiros na pesquisa de manejo para usos múltiplos da vegetação nativa, contribuindo decisivamente para que a exploração sustentável da Candeia — espécie de alto valor econômico e ecológico em Minas Gerais — se tornasse realidade para produtores rurais em todo o estado.

Entre os projetos de maior escala que coordenou, destaca-se o desenvolvimento da plataforma do Cadastro Ambiental Rural — o CAR —, sistema que abrange integralmente o território brasileiro e representa, nas palavras do próprio professor, a iniciativa de maior amplitude de sua carreira. Scolforo também assinou o Zoneamento Ecológico dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo e coordenou o Inventário, Mapeamento e Monitoramento da Flora Nativa e dos Reflorestamentos em solo mineiro. Projetos dessa magnitude não apenas geraram conhecimento científico: produziram instrumentos de política pública que orientam, até hoje, decisões sobre uso do solo, preservação ambiental e produção agrícola.

Para além dos laboratórios e das publicações, Scolforo também dedicou anos relevantes à gestão da UFLA. Exerceu as funções de chefe de departamento, coordenador de pós-graduação, pró-reitor nas áreas de pesquisa, administração e planejamento, vice-reitor e, entre 2012 e 2020, reitor da instituição. Sob sua liderança, a UFLA foi reconhecida pelo Green Metrics World como a instituição de ensino superior mais sustentável da América Latina — distinção que refletia, em larga medida, a convergência entre a vocação científica do reitor e os projetos ambientais que ele mesmo havia ajudado a conceber. Em 2024, a comunidade acadêmica voltou a depositar sua confiança no professor, elegendo-o para um novo mandato à frente da reitoria para o período 2024–2028.

O reconhecimento por essa trajetória veio de múltiplas instâncias. Scolforo é pesquisador de Produtividade 1A do CNPq — nível máximo da modalidade —, condição que mantém de forma ininterrupta desde 1983. No campo das honrarias, recebeu a Grande Medalha da Inconfidência, a mais alta distinção do Estado de Minas Gerais, e o Prêmio Frederico de Menezes Veiga, considerado o maior reconhecimento da pesquisa agropecuária brasileira, concedido pela Embrapa. Também foi agraciado com o Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade, a Medalha Alferes Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais e o Mérito Universitário da UFLA — distinção que, nos 108 anos de história da universidade, foi entregue a apenas cinco docentes em atividade.

A dimensão humana do cientista se revela também nos números de sua atividade orientadora: ao longo da carreira, Scolforo acompanhou 418 discentes, entre mestrandos, doutorandos, pós-doutorados e estudantes de graduação. Ministrou e ministra disciplinas como Dendrometria, Inventário Florestal, Manejo Florestal e Biometria Florestal, formando gerações de engenheiros florestais que hoje atuam em empresas, órgãos públicos e centros de pesquisa espalhados pelo país. Para o professor, esse capítulo da carreira é o de maior satisfação pessoal: em seu currículo, ele é enfático — "tenho enorme prazer em ser professor e contribuir para a formação dos nossos discentes".

Com a nova gestão à frente da UFLA, Scolforo já aponta para o futuro. À frente da Agência UFLA de Inovação em Geotecnologias e Sistemas Inteligentes — a ZETTA —, o professor articula a integração entre inteligência artificial, geoprocessamento e manejo florestal, apostando que essas tecnologias ampliarão ainda mais a capacidade de monitoramento ambiental e de tomada de decisão em escala nacional. Para Lavras, que em rankings recentes se destaca pelo seu ecossistema de inovação ancorado na UFLA, a trajetória de Scolforo é um espelho e um estímulo: a ciência feita aqui pode — e deve — alcançar o Brasil inteiro.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8717150703694552

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