Pular para o conteúdo principal

DOENÇAS QUE MUITOS ACREDITAVAM EXTINTAS AINDA DESAFIAM A SAÚDE PÚBLICA

Lavras registrou recentemente um caso envolvendo o aparecimento de barbeiros em área urbana de Lavras


Hanseníase, doença de Chagas, leishmaniose, tuberculose e arboviroses continuam afetando milhares de brasileiros e preocupando pesquisadores, profissionais da saúde e autoridades sanitárias. Mesmo após décadas de avanços científicos, muitas dessas enfermidades seguem presentes — impulsionadas pela desigualdade social, diagnóstico tardio, mudanças ambientais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. 

Em Minas Gerais, o alerta também passa pelas arboviroses. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde, o estado já ultrapassa 52 mil casos prováveis de dengue em 2026. Ao mesmo tempo, doenças historicamente negligenciadas continuam presentes no estado. Entre 2020 e 2025, Minas Gerais registrou 5.570 novos casos de hanseníase, segundo o Boletim Epidemiológico Estadual da Hanseníase 2026. O próprio estado reconhece a existência de bolsões de transmissão ativa da doença. 

Na Universidade Federal de Lavras (UFLA), o tema será debatido durante o VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas e o II Simpósio Mundial sobre o assunto, coordenados pela professora Dra. Joziana Barçante, do curso de Medicina da UFLA, com apoio da Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC). 

Um episódio ocorrido recentemente em Lavras reforçou a preocupação dos pesquisadores. Um estudante de Medicina da UFLA encontrou um barbeiro dentro do apartamento onde mora, no bairro Centenário, região central da cidade. O inseto era um barbeiro, vetor do Trypanosoma Cruzi, protozoário causador da doença de Chagas. 

A vigilância epidemiológica foi acionada e a região passou por monitoramento. Embora o inseto encontrado no apartamento do estudante não estivesse infectado, outros barbeiros positivos para a doença já foram identificados em diferentes pontos do município. 

“Por que ele me ligou? Porque ele sabia o que era um barbeiro”, afirma a professora Joziana Barçante, destacando a importância da informação e da educação em saúde. 

Segundo a pesquisadora, ainda existe uma falsa percepção de que muitas dessas doenças pertencem ao passado. 

“Hanseníase está nos registros bíblicos e ainda é um problema”, alerta. 

A tecnóloga em Saúde Pública do Instituto René Rachou (IRR/Fiocruz Minas), Raquel Aparecida Ferreira, explica que a doença de Chagas continua entre as 20 doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

“A doença jamais será completamente erradicada em países endêmicos, porque seu ciclo ocorre naturalmente nos ambientes silvestres”, afirma. 

Ela também chama atenção para a aproximação crescente dos vetores das áreas urbanas. 

“Num cenário agravado pelas mudanças climáticas e pelas alterações ambientais provocadas pela ação humana, a tendência é que os triatomíneos se aproximem cada vez mais dos ambientes urbanos, aumentando o risco de transmissão”, alerta. 

Para o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Andrey José de Andrade, as doenças negligenciadas continuam atingindo principalmente populações vulneráveis e invisibilizadas. 

“Elas acometem pessoas com pouca voz política e baixa visibilidade social”, destaca. 

Segundo ele, o debate sobre essas enfermidades vai muito além da área biomédica. 

“Hoje, a discussão também é política, econômica, social e cultural.” 

O simpósio também dará espaço para pessoas afetadas diretamente por essas doenças. Um dos convidados é Paulo Rodrigues, integrante do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas e curado da hanseníase. 

Ele conta que demorou três anos para receber o diagnóstico correto da doença, mesmo tendo procurado atendimento médico desde os primeiros sintomas. 

“O estigma dói. A discriminação fere. Existem feridas emocionais que talvez levemos a vida inteira para curar”, relata. 

Além das palestras e mesas científicas, o evento também promove atividades abertas ao público, aproximando universidade e população. 

“A ciência tem que ir onde o povo está”, resume Joziana. 

O simpósio reúne pesquisadores do Brasil e exterior, representantes da Fiocruz, Instituto Butantan, Médicos Sem Fronteiras, pesquisadores da África, Colômbia e do Instituto de Medicina Tropical de Londres. 

A FUNDECC atua no suporte operacional e logístico do evento, incluindo apoio à organização, gestão de projetos, compras e passagens. 

Serviço 
📍 VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas e II Simpósio Mundial
📅 19 a 23 de maio de 2026
📌 Salão de Convenções da Universidade Federal de Lavras (UFLA) — Lavras/MG

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS SEDIA MAIOR EVENTO CIENTÍFICO DO BRASIL SOBRE DOENÇAS NEGLIGENCIADAS

Festival Ciência na Praça é das atrações do Simpósio A Universidade Federal de Lavras (UFLA), no sul de Minas Gerais, recebe entre os dias 19 e 23 de maio de 2026 o VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas (VI SBDN) e o II World Symposium on Neglected Diseases (II WSND). O evento, considerado o maior do país dedicado ao tema, reúne pesquisadores, gestores públicos, profissionais de saúde e representantes de instituições nacionais e internacionais no Salão de Convenções do campus. A edição deste ano traz como pano de fundo a Agenda 2030 da ONU e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com ênfase no conceito de Saúde Única (One Health) — abordagem que integra a saúde humana, animal e ambiental. Entre as doenças em foco estão dengue, zika, chikungunya e outras enfermidades historicamente subfinanciadas em pesquisa e políticas públicas, que afetam desproporcionalmente populações vulneráveis. "Desde sua criação, em 2014, o SBDN consolidou-se como um espaço de diálogo...

TOMBAMENTO DE CARRETA

Tombou, agora, uma carreta de cerveja na Rodovia Fernão Dias (BR-3821), na pista sentido Belo Horizonte, no km 721, na região de Carmo da Cachoeira. A faixa da esquerda está interditada em os ambos sentidos. No momento, trânsito está fluindo sem lentidão. Motorista sem ferimentos graves. Imagens @transitofernaodias *Por Sebastião Filho 

BOLSONARO CONDENADO

Nesta quinta-feira (11), a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu, por maioria, condenar os oito réus do Núcleo 1 da ação penal 2668, a trama golpista. A AP 2668 tem como réus os oito integrantes do Núcleo 1 da tentativa de golpe, ou “Núcleo Crucial”, segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR): o deputado federal Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin); o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Marinha; Anderson Torres, ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do DF; o general Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI); o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro (réu-colaborador); o ex-presidente da República Jair Bolsonaro; o general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; e o general da reserva Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil e da Defesa. A acusação envolveu os crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de E...