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PROJETO EM TRÊS MARIAS UTILIZA A ARTE COMO FERRAMENTA DE ACOLHIMENTO A MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA

Segundo a pesquisa “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), metade dos feminicídios registrados no Brasil em 2024 aconteceu em cidades com até 100 mil habitantes

Metade dos feminicídios registrados no Brasil em 2024 aconteceu em cidades com até 100 mil habitantes. É o que revela a pesquisa “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Em 2024, o país registrou 1.492 feminicídios, o equivalente a quatro assassinatos de mulheres por dia. Desse total, 746 casos foram registrados em municípios de pequeno porte, onde vivem 41% da população feminina brasileira.

É nesse cenário que, em Três Marias, nasce um espaço que não aparece nas estatísticas, mas muda destinos: o projeto “Mais que Três”, idealizado por Zackia Daura, escritora, artista plástica e fundadora da FADA (Fundação Sálua Daura de Arte e Cultura). O objetivo é transformar dor em força e agir silenciosamente para impedir que a violência contra a mulher termine em feminicídio.

“Cada mulher que se reconhece, que se reconstrói e que volta a se amar, interrompe uma história que poderia terminar em dor. E quando ela se levanta, não é só a vida dela que muda, é toda uma geração que pode ser curada através dela”, reflete Zackia Daura.

Em parceria com o CRAS e o CREAS, o projeto da fundação FADA oferece encontros gratuitos com arteterapia, práticas terapêuticas, orientação jurídica e rodas de conversa sobre direitos e violência doméstica. Tudo conduzido por uma rede de mulheres — advogadas, psicólogas, terapeutas, assistente social — que acolhem outras mulheres.

“Há dores que não fazem barulho. Elas se escondem em casas pequenas, em cidades tranquilas, atrás de portas que ninguém ousa abrir. Toda semana, mulheres se reúnem para compartilhar aquilo que, por muito tempo, foi impossível dizer. Histórias de abuso, de relações que ferem, de silêncios impostos e de medo. Mas também histórias de coragem”, conta a fundadora da FADA.

Histórias que atravessam a dor — e florescem
Entre as participantes, há quem tenha passado a infância aprendendo a dizer “sim” para ser aceita e hoje aprende, pela primeira vez, a dizer “não”. Há quem tenha vivido anos de humilhação até acreditar que não merecia mais amor, e agora começa a se reencontrar. Há quem tenha fugido da violência com os filhos e encontrado, ali, uma nova chance de viver.

“Eu sentia minha vida ameaçada. Hoje me sinto livre”, diz uma das mulheres. Outra resume em poucas palavras o que antes parecia impossível: “Hoje eu consigo me amar”.

Outra participante conta que “depois de tantas traições e humilhações desenvolvi uma depressão muito grande e só aqui consegui vencer esse sentimento de rejeição e abandono. Estou aprendendo a amar a mim mesma e me reequilibrar. A Fada me trouxe de volta pra vida”.

Para Soraya, “esse acolhimento me faz ter a sensação de estar em uma família e pra mim que estou distante de todos isso é ainda mais importante”.

De acordo com Ivane Fernandes, terapeuta holística do projeto, “quando uma mulher se permite sentir, se expressar e se acolher, ela começa a reorganizar sua própria alma. A cura não acontece de fora para dentro — ela nasce no momento em que essa mulher percebe que tem valor, voz e direito de existir com dignidade”.

A arte como caminho de volta para si
No centro de tudo está a arte — não como estética, mas como ferramenta de reconexão. Pintar, criar, sentir, falar. Dar forma ao que estava preso. Nomear o que doía. “A arte, ali, é a ponte entre o sofrimento e a libertação. É linguagem para aquilo que nunca teve palavras”, destaca Zackia.

Em um país onde mulheres ainda morrem todos os dias por serem mulheres, o “Mais que Três” atua no lugar mais decisivo: antes da tragédia. “Ele não aparece nas manchetes policiais. Mas impede que muitas delas existam. Porque cada mulher acolhida é uma história que pode ser transformada. Cada mulher fortalecida é uma vida protegida. E cada mulher que se levanta, carrega consigo a possibilidade de um mundo mais justo, mais humano — e mais seguro para todas”, finaliza Zackia Daura.

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