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EX-DETENTO DÁ VOLTA POR CIMA E INSTALA MARCENARIA DENTRO DE PRESÍDIO

Agora empresário, Júlio César acredita que pode levar esperança para quem vive atrás das grades

Muitos saem da prisão prometendo não voltar nunca mais, mas com Júlio César da Silva, de 40 anos, foi diferente. Ele voltou e, desta vez, para ajudar a mudar a realidade de outros detentos. Depois de sair do sistema prisional, o agora empresário instalou uma marcenaria no Presídio de Itajubá, no Sul de Minas, onde cumpriu parte da sua pena. 

“Não penso só no lado financeiro. Quero ajudá-los também. Busco ser um exemplo de transformação na vida desses caras que, como eu, cometeram um erro no passado”, afirma.

Depois de dez anos e quatro meses preso, ele quis voltar para o sistema prisional convicto de que pode representar esperança para outras pessoas que experimentam a vida atrás das grades. A nova oficina de trabalho está instalada em um galpão de 150m², reformado e equipado por ele.


As atividades começaram na última semana, empregando inicialmente cinco presos, mas a intenção do empresário é que esse número chegue a 15. No primeiro dia de empreitada, foram produzidas sete peças, entre bancos, janelas e decoração para jardins.

Até o fim da semana, dezenas de peças já se acumulavam no galpão, prontas para serem despachadas para a oficina externa, onde serão pintadas e finalizadas para a venda.

Ao longo de dez anos, ele cumpriu pena no Presídio de Itajubá e no Complexo Penitenciário Nelson Hungria (CPNH), onde teve a chance de exercer a sua profissão de marceneiro, já que no complexo penitenciário de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, também existe uma oficina de produção de móveis.

Em 2014 ele recebeu o tão esperado alvará de soltura e foi direto para Itajubá rever familiares e retomar sua vida com dignidade. Planejou o retorno enquanto ainda estava preso e sabia que o ofício de marceneiro seria a chave para a sua transformação pessoal.

Negociações
As negociações para que Júlio César levasse a sua oficina para dentro da unidade prisional começaram em 2017. Ao passar por uma rodovia que corta a cidade de Itajubá, o diretor de Atendimento e Ressocialização da unidade prisional, Leandro Rodrigues Palma, avistou uma loja de marcenaria e ficou impressionado com as peças expostas à margem da estrada.

“Era muito bonito o trabalho e resolvi parar para conhecer melhor o dono do lugar e logo pensei em propor a ele uma parceria com o presídio para ensinar os presos o ofício de marceneiro. Para minha surpresa, ele disse que me conhecia, pois era egresso do sistema prisional e havia cumprido parte da pena no Presídio de Itajubá”, lembra Leandro.

Com documentos prontos e aprovados, a parceria com o sistema prisional foi firmada e a fábrica intramuros foi inaugurada. Hoje, o empresário é um dos 391 parceiros das unidades prisionais de Minas Gerais que acreditam que a oferta de trabalho para presos e egressos é importante alternativa para a construção de uma sociedade melhor.

“Eu acredito que tudo tem um propósito nessa vida. Talvez, se eu não tivesse sido preso, não estaria aqui hoje fazendo isso por outros internos. Eu me ressocializei e acredito que todos podem fazer o mesmo. Espero ensinar a eles uma profissão, mostrar que dá para recomeçar, dá para fazer a diferença. Não penso só no lado financeiro. Quero ajudá-los também, busco ser um exemplo de transformação na vida desses caras que, como eu, cometeram um erro no passado”, diz Júlio.

O diretor-geral do Presídio de Itajubá, Rodney Dantas, comemora a mais nova parceria de trabalho. “O prazer em saber que uma pessoa passou por uma situação difícil na vida, se recuperou e hoje cria seus filhos e cuida da sua família dignamente é motivo de muito orgulho para nós, servidores do sistema prisional. Apesar dos anos de aprisionamento, ele tem a coragem e a bravura de voltar para o ambiente em que já esteve custodiado, com outra perspectiva e outra visão, mostrando para todos que é possível a busca por ser uma pessoa melhor por meio do trabalho, ensino e do aperfeiçoamento pessoal e profissional”, observa Rodney.

Escassez de mão de obra
Um dos motivos que também levou Júlio a instalar a maior parte da sua produção no presídio é a falta de mão de obra qualificada do lado de fora da unidade. “As pessoas não tinham interesse em trabalhar. Por eu já ter sido preso e ter trabalhado enquanto cumpria pena, sabia que encontraria na unidade um serviço de qualidade. Então decidi investir. Agora vou poder ter mais tempo para mim, pois, antes, tinha que fazer tudo sozinho”, avalia.

O interno Ivanildo Pereira Gomes, 50 anos, foi um dos selecionados para trabalhar na parceria. Ele não esconde a euforia de poder sair da cela e aprender uma profissão. “Isso é muito importante, não só por estar preso, mas por isso aqui ser uma oportunidade única. Assim que eu consegui essa chance, abracei com toda força e vontade. É muito bom aprender. O que aprendemos aqui vamos levar para fora e quem sabe no futuro poderei ter a minha própria fábrica. Estou amando poder vir aqui trabalhar todos os dias”, diz o novo empregado.

Presídio modelo
Com cerca de 160 detentos trabalhando diariamente e outros 80 estudando, as boas práticas do Presídio de Itajubá levou à formalização do reconhecimento da unidade prisional como unidade escola no âmbito da ressocialização e do atendimento ao custodiado. A resolução foi publicada no Diário Oficial em janeiro deste ano.

A unidade prisional de Itajubá se destaca, não somente no Sul de Minas, mas em todo o estado, como um presídio que vai além do atendimento aos eixos determinados pela Lei de Execução Penal (LEP). O bom relacionamento dos diretores geral e de atendimento do presídio, Rodney Dantas Pinto e Leandro Rodrigues Palma, com instituições públicas e privadas, além da sociedade civil da região, possibilitaram por exemplo, o apoio a projetos sociais e filantrópicos que são realizados pela unidade prisional e reconhecidos pela comunidade.

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