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MINISTÉRIO DA CULTURA HOMOLOGA TERNO DE CONGADA NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO COMO PONTO DE CULTURA

Uma história construída ao longo de gerações, embalada pelo som dos tambores, pela fé e pelo compromisso de manter viva uma das mais importantes manifestações da cultura popular brasileira, acaba de conquistar um reconhecimento histórico. O Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário, de Silvianópolis/MG, foi oficialmente homologado como Ponto de Cultura pelo Governo Federal.

A certificação foi entregue aos representantes da Congada, reconhecendo oficialmente décadas de dedicação à preservação da cultura afro-brasileira, da memória ancestral e das tradições populares que atravessam gerações no Sul de Minas. A conquista representa um importante marco para o grupo, fundado em 1980, o terno de congado mais antigo em atividade em Silvianópolis e guardião da tradicional Festa de Nossa Senhora do Rosár
io, celebração que completou 246 anos de história em 2026.

Os Pontos de Cultura são entidades, grupos ou coletivos reconhecidos pelo Ministério da Cultura por desenvolverem ações contínuas de valorização, preservação e promoção da cultura brasileira junto às comunidades. A certificação integra o Programa Cultura Viva, uma das principais políticas públicas de incentivo ao setor do país. Agora, o grupo passa a fazer parte da rede nacional, podendo trocar experiências, participar de encontros, formações e ações culturais promovidas pelo MinC e por outros Pontos de Cultura.

A Congada recebeu também a Declaração do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), confirmando sua inclusão no Cadastro do Patrimônio Cultural Reinados e Congados de Minas Gerais, que reúne os grupos detentores dos Caminhos, Expressões e Celebrações do Rosário reconhecidos como Patrimônio Cultural de Minas Gerais, conforme a Deliberação CONEP nº 03/2024.

Para quem dedica a vida à preservação dessa tradição, a homologação representa muito mais do que um certificado. Capitão do grupo, Marco Aurélio Valentim, cita que o novo título simboliza a valorização de uma tradição construída por muitas mãos e que atravessa gerações.

"É uma alegria enorme ser reconhecido pelo Ministério da Cultura do Brasil como Ponto de Cultura. Isso mostra que nosso congado é vivo. Temos histórias e um grande legado dos nossos ancestrais e seguimos mantendo esta tradição, que é patrimônio cultural de Minas Gerais e do Brasil", afirma.

Tradição, resistência e pertencimento

Mais do que uma manifestação religiosa, o Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário representa um patrimônio vivo da identidade afro-mineira. E para o pesquisador de Congados e Folias de Reis, Rafael Huhn, a homologação reafirma o papel do Congado como uma das mais legítimas expressões da cultura afro-brasileira.

"O Congado é uma das mais legítimas expressões da cultura do povo preto escravizado no Brasil e hoje é considerado patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais e do Brasil. Ser reconhecido como Ponto de Cultura, dentro do Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, é referendar que o Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário mantém vivas as práticas, os saberes e a memória dos nossos ancestrais”, diz Huhn.

Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, o grupo participa anualmente da Festa de Nossa Senhora do Rosário de Silvianópolis, de encontros de Congadas em diversas cidades, realiza ensaios permanentes e promoveações comunitárias. Também esteve presente em produções audiovisuais como os documentários Respirando a Fé e A Congada de Nossa Senhora do Rosário de Silvianópolis, além de integrar projetos culturais como o Roda de Almas – Vozes de Mestres, realizado pelo Embornal Cultura e Turismo no Sesc Pouso Alegre.

Sob a liderança de Marco Aurélio Valentim desde 2005, o grupo amplia sua atuação para além da religiosidade, desenvolvendo atividades em escolas, instituições de ensino e projetos de educação patrimonial, levando às novas gerações o conhecimento sobre a cultura afro-brasileira, a história do Congado e a importância da valorização das raízes negras.

A Congada reúne crianças, jovens, adultos e idosos em uma construção coletiva onde o conhecimento é transmitido oralmente, por meio da convivência, da música, da fé e do exemplo dos mestres mais antigos. Cada integrante torna-se responsável por manter viva uma tradição que ultrapassa dois séculos de história e continua formando novas gerações.

O Congado também desempenha um importante papel social ao acolher jovens da zona rural e da periferia, fortalecer a autoestima da população negra e promover a inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que encontram na música, na bateria e nas celebrações um ambiente de pertencimento, convivência e desenvolvimento.

Para quem veio antes e quem ainda virá

Se tornar Ponto de Culturaeterniza o trabalho silencioso de homens e mulheres que, durante décadas, mantiveram acesa a chama da cultura popular mesmo diante das dificuldades, muitas vezes sustentando o Congado com recursos próprios, campanhas comunitárias e a força da fé.

É o reconhecimento de que os tambores continuam falando. Que cada toque da caixa, cada canto, cada passo e cada coroa carregam histórias de resistência, espiritualidade, identidade e pertencimento. Mais do que preservar uma tradição, o Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário preserva a memória de um povo.

A emoção tomou conta da coordenadora da Congada e Mestra Guarda-Coroa, Conceição, que relembrou aqueles que dedicaram suas vidas à construção da história do grupo. "Que coisa maravilhosa! Nossos congadeiros que hoje não se encontram mais com a gente devem estar felizes lá no céu. Nosso congado é nossa vida e dedicamos muito para que ele, a cada dia, possa ser mais bonito e representar nossas tradições", enfatiza.

Mais do que um título concedido pelo Ministério da Cultura, a homologação reafirma que a história do Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário não pertence apenas aos seus integrantes, mas também ao patrimônio cultural brasileiro. Enquanto houver tambores, cantos e devoção, a voz dos ancestrais continuará ecoando pelas ruas de Silvianópolis, mantendo viva uma história que agora também pertence, oficialmente, à memória cultural do Brasil.

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